O Peso Invisível dos Dias
O Peso Invisível dos Dias
Entrar no supermercado do bairro às oito da manhã é, antes de tudo, um exercício de coreografia social. O piso de granitina gasta reflete os tubos de luz fluorescente que zunem um si bemol contínuo, enquanto os primeiros clientes da vizinhança empurram carrinhos de rodas desalinhadas, aquelas que insistem em puxar para a esquerda, como se guardassem uma inclinação política ou um defeito crônico de nascença.
Fui em busca de café e silêncio, mas acabei parando no corredor dos doces. Foi ali que a metafísica da prateleira me pegou pelo colarinho.
Peguei uma barra de chocolate daquela marca cuja embalagem vermelha habitou minha infância. O toque no plástico, contudo, traiu a memória. Havia um vazio novo entre os quadrados de cacau, um vácuo pneumático que o design tentava disfarçar com dobras estratégicas. Olhei a frente: a tipografia imponente continuava lá, o logotipo brilhava com o mesmo orgulho dourado de outrora. Mas, no rodapé, as letras miúdas confessavam o crime de maquiagem: “Nova fórmula: de 100g para 90g”.
Sorri com uma ponta de ironia. O mundo, pensei, está sofrendo de um encolhimento homeopático.
Avancei para o setor de laticínios, o coração do asfalto doméstico, e o ilusionismo ficou ainda mais sofisticado. Onde antes repousavam caixas de leite condensado para o doce de domingo, agora alinham-se embalagens idênticas ostentando o título de “Mistura Láctea Condensada”. Ao lado, o leite em pó cedeu espaço ao “Composto Lácteo”. As cores são as mesmas, a vaquinha feliz no pasto continua pastando no mesmo lugar, mas o conteúdo foi sutilmente esvaziado de sua substância original. É o genérico cobrando o preço do autêntico.
A reduflação, esse termo cinzento que os economistas criaram para explicar o repasse da inflação sem o trauma do aumento da etiqueta, na verdade é uma metáfora perfeita para o nosso tempo. As indústrias descobriram que o ser humano é um animal de hábitos visuais e automatismos cognitivos. Nós não lemos o mundo a cada segundo; nós o reconhecemos por aproximação. Confiamos na estabilidade do tamanho da caixa de sabão em pó, no volume da garrafa de refrigerante, na espessura do biscoito. Confiamos que o amanhã manterá o peso de ontem.
E é justamente nessa fresta de confiança que o truque acontece.
Caminhando de volta para o caixa, olhando aqueles carrinhos cheios de embalagens que mantêm a casca mas reduzem o miolo, percebi que a prateleira do supermercado não faz nada diferente do que a própria vida moderna faz conosco todos os dias nas telas.
Nós também estamos operando em modo de reduflação existencial. Nossas interações sociais foram embaladas em layouts impecáveis, mas o peso líquido do afeto diminuiu; trocamos a densidade de uma conversa de calçada por pacotes de curtidas de 15 gramas. Consumimos conteúdos que se dizem profundos, mas que na verdade são compostos digitais saborizados por algoritmos, projetados para nos entregar menos reflexão em troca de mais tempo de tela. Corremos mais, pagamos mais caro em atenção e energia, para no final do dia descobrirmos que a barra do tempo também encolheu.
No caixa, a funcionária passou o chocolate de noventa gramas pelo leitor ótico. O bipe soou agudo, indiferente à perda de substância do mundo. Paguei o valor integral, sem reclamar. Afinal, o espetáculo do ilusionismo só funciona quando o público aceita a ilusão em troca do conforto de não precisar olhar o verso do rótulo.
Saí para a rua. O sol de outono começava a esquentar o asfalto, e eu levava nos braços um punhado de caixas bonitas, cheias de vento e de pequenas ausências.
Vitor Santos
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