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Mostrando postagens de maio, 2026

A Estação dos Olhos Baixos

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                                         A Estação dos Olhos Baixos O balanço da Linha 12-Safira da CPTM tem um ritmo próprio, uma espécie de solavanco metálico que dita o compasso da Zona Leste em direção ao centro de São Paulo. Às sete da manhã, o vagão não é apenas um meio de transporte; é um imenso dormitório vertical em movimento, onde os corpos se escoram uns nos outros por pura falta de espaço, unidos pelo cansaço e pela gravidade do asfalto. Mas há uma luz estranha que flutua sobre esse mar de gente. Não vem das lâmpadas fluorescentes do teto, mas de baixo. Centenas de rostos, espremidos ombro a ombro entre as estações São Miguel Paulista e Brás, estão inclinados no mesmo ângulo exato de trinta graus. São as cabeças baixas da era do silício. Uma névoa azulada, emitida por telas de todos os tamanhos e trincas, ilumina as testas, as bochechas e os olhos fixos. Ali, no aperto do...

O Silêncio dos Tijolos

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                                         O Silêncio dos Tijolos Quem caminha apressado pela calçada da Avenida Rangel Pestana, com os fones de ouvido isolando o barulho dos ônibus e os olhos fixos na tela onde notificações piscam a cada três segundos, dificilmente repara na esquina com a ruela estreita. Mas ela estava lá. Ou melhor, ainda está, por mais alguns dias. Parei diante do tapume de compensado verde, cuja pintura descascada exibe cartazes rasgados de shows que já aconteceram e pichações sobrepostas que funcionam como o palimpsesto da rua. Por cima da barreira de madeira, erguia-se o esqueleto castigado de um velho casarão do início do século passado. Um sobrevivente de tijolos maciços, adornos de argamassa lavada e janelas de arco pleno que outrora emolduravam a vida de uma São Paulo que crescia no ritmo do café e dos bondes abertos. Agora, o casarão está mudo. Suas entranha...

O Peso Invisível dos Dias

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                                              O Peso Invisível dos Dias Entrar no supermercado do bairro às oito da manhã é, antes de tudo, um exercício de coreografia social. O piso de granitina gasta reflete os tubos de luz fluorescente que zunem um si bemol contínuo, enquanto os primeiros clientes da vizinhança empurram carrinhos de rodas desalinhadas, aquelas que insistem em puxar para a esquerda, como se guardassem uma inclinação política ou um defeito crônico de nascença. Fui em busca de café e silêncio, mas acabei parando no corredor dos doces. Foi ali que a metafísica da prateleira me pegou pelo colarinho. Peguei uma barra de chocolate daquela marca cuja embalagem vermelha habitou minha infância. O toque no plástico, contudo, traiu a memória. Havia um vazio novo entre os quadrados de cacau, um vácuo pneumático que o design tentava disfarçar com dobras estratégicas. ...