Crônicas da Noite Mais Longa do Ano
Crônicas da Noite Mais Longa do Ano
Ensaio Sobre a Sombra e o Solstício
O relógio avisa que faltam poucas horas para as 5h24 da manhã deste domingo, 21 de junho de 2026. Para a astronomia, é o momento exato do solstício. Para mim, é apenas o instante em que o ar gélido encontra a fresta da janela e me lembra de que a terra completou mais uma curva. O inverno que começa agora não é apenas uma mudança no calendário ou no termômetro; é uma mudança de ritmo na alma.Cruzar a noite mais longa do ano é aceitar um convite forçado à solitude. Olho pela janela e vejo os contornos cinzentos da cidade começarem a se apagar sob a neblina que desce cedo, transformando os postes da rua em faróis difusos. Enquanto o vento lá fora ganha força, o mundo exterior parece encolher, e somos empurrados para dentro de nós mesmos. Há uma melancolia mansa nesse recolhimento. No canto do quarto, as notas suaves de um jazz antigo — aquela melodia de Chet Baker que parece feita de puro outono — preenchem os vazios do espaço. O inverno nos obriga a encarar o silêncio que o barulho do verão costuma mascarar.Existe uma beleza vulnerável em sentir frio. Ele nos torna conscientes do próprio corpo, da fragilidade da nossa pele e da necessidade profunda de abrigo. Na solidão dessas noites compridas de 2026, o aconchego deixa de ser um luxo decorativo e passa a ser um ato de sobrevivência emocional. O cheiro forte do café passado na hora, que invade a cozinha e aquece as mãos antes mesmo de tocar os lábios, traz consigo uma enxurrada de memórias: manhãs na cozinha de madeira da minha avó, onde o fogão aceso era o coração da casa. Procuramos o calor não apenas nas roupas que tiramos do armário, mas nessas lembranças salvas do tempo, nas palavras escritas e na busca por um centro que faça o mundo parecer menos vasto. Aprendemos, finalmente, a ser nossa própria companhia.Olho para a escuridão lá fora sabendo que esta madrugada carrega o ápice da sombra. No entanto, a poesia do solstício reside justamente no seu ponto de virada. A noite mais longa é também o limite final da escuridão. A partir de amanhã, o sol começa, centímetro por centímetro, a retomar o seu espaço, e os dias voltam a crescer. O inverno que nos isola e nos faz refletir é o mesmo que, em seu recolhimento silencioso, prepara a terra para florescer outra vez.
Vitor Santos é escritor, cronista e jornalista
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