O país do futebol corre o risco de virar museu
O país do futebol corre o risco de virar museu
Por Vitor Santos
A eliminação precoce da Seleção Brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo, selada naquele melancólico 2 a 1 para a Noruega no MetLife Stadium, doeu no torcedor. Mas, para quem acompanha os bastidores do nosso futebol, o resultado não trouxe surpresa. Ver Erling Haaland balançar as redes duas vezes e o Brasil desperdiçar um pênalti crucial com Bruno Guimarães não foi um azar de percurso. Foi, na verdade, o xeque-mate previsível em uma estrutura que parou no tempo. Ao estender o nosso jejum de títulos mundiais para longos 24 anos, a Seleção nos obrigou a encarar uma dura realidade: o abismo tático e de postura que nos separa do topo do mundo.
O colapso da Amarelinha não tem um culpado único, mas sim uma tríade de responsabilidades. Na raiz do problema está a CBF, cuja instabilidade política crônica rifou o planejamento do ciclo do Mundial. Passamos meses em uma espera constrangedora por Carlo Ancelotti, operando com técnicos interinos, para no fim entregar um elenco sem o devido entrosamento tático. Dentro de campo, o reflexo foi evidente. Enquanto o futebol moderno exige blocos compactos, pressão sufocante e intensidade física, o Brasil jogou engessado. Para completar, nossa atual geração de atletas, exportada de forma ultraprecoce para a Europa, demonstrou uma fragilidade emocional assustadora. Na primeira pane tática, o time desmoronou psicologicamente por falta de lideranças cascudas que chamassem a responsabilidade.
Esse choque de realidade precisa ecoar urgentemente nos clubes brasileiros. Vivemos hoje uma ilusão de ótica provocada pela soberania financeira do país na Copa Libertadores. Mas é preciso entender que a Libertadores e a Copa do Mundo operam em universos distintos. No cenário sul-americano, o jogo aceita o ritmo cadenciado, as interrupções por faltas e resolve-se muito no talento individual ou na adaptação à altitude e à catimba. No plano global, como vimos no Super Mundial de Clubes — onde nossos representantes sofreram diante da compactação europeia que consagrou o Chelsea —, a conversa é outra. Se as ligas nacionais não modernizarem o calendário asfixiante e as metodologias de treino, continuaremos reis na América do Sul e meros figurantes no resto do planeta.
Histórias de impérios esportivos que ruíram não faltam. O Uruguai precisou do "Processo Tabárez" em 2006 para resgatar sua dignidade e o orgulho pela camisa por meio da educação e da disciplina, após décadas de ostracismo. O desafio do Brasil é ainda mais complexo: como resgatar o drible, o improviso e o futebol arte em uma era de jogo engessado por esquemas posicionais? Desde as escolinhas de base, estamos trocando o "futebol de rua" por cartilhas táticas rígidas, pasteurizando nossos talentos e criando operários de campo em vez de gênios criativos.
Se não mudarmos a governança da CBF, o calendário dos clubes e a mentalidade de formação, o declínio cultural será definitivo. Em tempos onde as novas gerações (Gerações Z e Alfa) são disputadas pelo imediatismo dos eSports, pelo apelo cultural da NBA e pelo entretenimento rápido, o futebol brasileiro está perdendo o seu brilho e sua centralidade social. Se continuarmos nesse caminho de arrogância e negação, em um futuro muito breve o título de "país do futebol" será apenas um conto nostálgico. Restará a nós a melancólica tarefa de contar para filhos e netos que, em um passado distante, existiu um Brasil que tinha reis, encantava o planeta com sua ginga e fazia do futebol a expressão máxima da sua arte.
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